quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
OS COMUNISTAS E O BANDOLEIRO SELVINO JAQUES
Eronildo Barbosa*
Ganha as batalhas políticas e outras quem consegue fazer o maior número
de alianças. Essa é uma recomendação importante. Ancorado nessa linha de
raciocínio, em 1935, por ocasião da chamada Intentona Comunista celebrou-
se uma tênue aliança política entre membros do Partido Comunista do Brasil -
PCB e o bandoleiro Selvino Jaques, que morava e agia na região de fronteira
do sul de Mato Grosso com a República do Paraguai.
O PCB estava tentando organizar um exército com o objetivo de derrubar o
governo de Getúlio Vargas e construir um projeto de cunho socialista para
o Brasil. Como muito dessa iniciativa se ancorava na figura de Luís Carlos
Prestes, tenentista dos bons, respeitado por toda tropa, surgiu a idéia de
mandar dois militantes do Rio de Janeiro para o sul de Mato Grosso com a
tarefa de entrar em contato com alguns militares do exército que conheciam e
admiravam a saga dos tenentes.
Em abril de 1925 a Coluna Prestes tinha passado pelo sul de Mato Grosso
causando boa impressão em parte da tropa aqui instalada. Houve até
uma sublevação no 17º Batalhão de Caçadores de Corumbá, comandada
pelos sargentos Aquino e Granja, em apoio aos tenentes que, vez ou outra,
enfrentava as tropas do exército comandada pelo general Klinger.
Os militantes que vieram para o estado organizar o suposto levante foram:
Rádio Maia, nascido em Mato Grosso, que depois se tornou político, jornalista
e dirigente do PCB regional, e Ruvião Agrícola provavelmente nascido na
capital de São Paulo.
O trabalho dos dois jovens comunistas, inicialmente, rendeu alguns frutos. De
acordo com (Ibanhes, Brigido. Selvino Jaques: o ultimo dos bandoleiros, 1995,
p.124) eles conseguiram o apoio de alguns oficiais do quartel do exército de
Bela Vista.
Na busca de mais parceiros eles chegaram até o bandoleiro Selvino Jaques.
Mesmo sem entender direito a missão ele topou montar uma tropa e ir à luta
contra o governo Federal. Contribuiu para isso o fato de estar brigado com
alguns fazendeiros gaúchos que tinham ligação política com Getúlio Vargas.
Era uma mudança de posição. Em 1932, na chamada Revolução
Constitucionalista, Selvino combateu ao lado das tropas leais a Getúlio.
Pegou em armas contra o pessoal que desejava criar o estado de Maracaju,
capitaneado por Vespasiano Martins.
Agora, afastado dos gaúchos, queria mostrar serviço do outro lado, com os
comunistas, que prometiam fazer uma profunda reforma agrária na região. Era
do seu interesse um pedaço de terra. Aliás, a tese da reforma agrária era um
atrativo forte para manter o pessoal entusiasmado.
Selvino juntou 300 homens em armas. Vendeu até uma boiada para sustentar
os gastos com a tropa. Só que os combates estavam demorando a se iniciar.
Não havia sintonia entre a direção nacional do PCB que deveria marcar a data
para o levante e as poucas tropas dispostas a esse sacrifício nos estados. Até
porque o serviço secreto do governo já tinha identificado o movimento. Estava
infiltrado nas hostes comunistas.
Selvino Jaques cobrou duro de Agripino Ruvião uma data para o levante. Este,
depois de consultar o PCB no Rio de Janeiro, por carta, definiu que no dia 30
de setembro o levante aconteceria. Entretanto, no dia 29, também por carta,
Agricola Ruvião foi informado para esperar um pouco mais.
O velho bandoleiro não gostou da notícia. Dispersou sua tropa, porém, antes,
conforme (Viana, Marly. Os revolucionários de 1935, 1992, p.170) aplicou uma
violenta surra em Agricola Ruvião e o entregou todo machucado, junto com os
panfletos convidando a população para o levante, ao batalhão de caçadores
do exército de Aquidauna. O comunista foi apresentado às autoridades como
um perigoso agitador político que queria subverter a ordem da região. Por isso
Selvino o prendeu.
A iniciativa de prender Agricola Ruvião se converteu numa operação de
marketing. Ele mostrou para os fazendeiros getulistas da região que continuava
defendendo o governo Federal, embora esses quisessem distância do
Selvino. Não agüentavam mais os roubos e os assassinatos perpetrados pelo
bandoleiro e seu bando.
O levante propriamente dito só aconteceu no dia 23 de novembro de 1935. Foi
um desastre. Uma coleção de erros. Os equívocos cometidos no Mato Grosso
se verificaram também nos demais estados. Não havia condições objetivas e
subjetivas para o golpe. Logo as prisões ficaram lotadas de gente em todo o
Brasil. Inclusive oficiais do quartel de Bela Vista.
O comunista Agricola Rubião conseguiu ser solto ainda no ano de 1935. Foi
ajudado por alguns militares que ali estavam presos. Seu paradeiro continua
ignorado. Ficou apenas a lembrança de uma aliança muito louca.
*Eronildo Barbosa é doutor em educação e autor do livro
Sindicalismo em Mato Grosso do Sul- 1920-1980. Email
EronildoBrasil@hotmail.com.
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